Perseverar
“Com feito, tendes necessidade de perseverança” (Hb
10. 36).
Vivemos numa sociedade da lógica do consumo e do descarte.
Coisa alguma parece ser feita para durar. A própria fragilidade e fácil
destrutibilidade dos materiais revelam isso. Materiais sempre mais leves, mais
sensíveis, menos capazes de suportar peso, fricção, pressão e choques. Essa
mesma lógica parece ter alcançado as mentes e os corações dos homens. Quase não
existem projetos humanos feitos para durar. Quase ninguém projeta coisa alguma
á longo prazo, os relacionamentos não duram mais que uma estação do ano. Alguns
nem resistem até a próxima balada. Os casamentos acabam antes mesmo de começar,
muitos o tem como um ‘teste driver’ para a felicidade tendo sempre outras
opções em mente. As palavras sacrifício, perseverança, renúncia, resistência, bem como a
verdadeira noção de seus respectivos significados e de sua importância para uma
vida coerente e consistente estão desaparecendo da cultura e da educação comum.
Não raros educadores, psicólogos, líderes religiosos e formadores de opinião em
geral não só deixaram-se capitular por esta mentalidade de contínua mudança e
perpétua instabilidade, bem como ensinam e pregam que tal inconstância é o
caminho mais curto para a felicidade. Nada mais parece fazer e ter sentido
permanente. Ideologias de partidos políticos, filiação religiosa e etc. são tão
movediças e insustentáveis que quase não podemos mais falar em identidade
definida. Nem o sexo ou a sexualidade humana são tratados como fatos brutos,
mas sofrem releituras, reinterpretações e experimentos constantes, diluindo
assim a personalidade num vácuo existencial. As Escrituras ensinam que todos
precisamos de perseverança, de fidelidade, de integridade, de identidade definida e
medida por um padrão definido que é Cristo para alcançarmos a plena felicidade. Por isso mesmo a Palavra de Deus fala sempre em termos de absoluto, definitivo e eterno.
Fala de homem e mulher, sem nenhuma outra releitura ou interpretação de papéis.
Fala da indissolubilidade do matrimônio monogâmico heterossexual ou de
castidade, sem meios termos ou adequações culturais. A Bíblia insiste em um
caráter resoluto, palavra fidedigna e em absolutos morais e não abre espaço
para a lógica do conveniente e do relativismo. Bem e mal, doce e amargo, certo
e errado são padrões definidos e imutáveis. Por isso mesmo maior é a nossa ação
de graças quando nos reunimos como Igreja para celebrar os 25 anos
ininterruptos do presbiterado do nosso irmão Raílton Rocha de Andrade Jr. Não
faz muito celebramos os seus 25 anos de matrimônio e agora o seu jubileu de
prata, como oficial desta igreja, vivendo com fidelidade seu nobre e humilde
ofício à frente desta comunidade. Não foram 25 anos de um mar de rosas e
festas. Certamente não lhe faltaram razões humanas mais que suficientes para
desistir, quer do casamento, quer do presbiterado. Certamente o presbítero Raílton
também sofreu as pressões e as tentações do nosso tempo que reclamam novas
experiências, que apresentam alternativas para a felicidade e que divulgam a
ideia de que nada vale tanto esforço assim, tanto sacrifícios como esses e
mais, que a vida é muito curta para fazer-se rogado e renunciar o que quer que
seja. Afinal, merecemos ser felizes custe o que custar. Mas, graças a Deus, o
Senhor preservou o casamento e o presbiterado do nosso irmão com promessas
definitivas, com verdades absolutas, com o asseguramento da salvação realizada
de uma vez por todas na Cruz e com a graça da perseverança final, mesmo que
tudo ao redor esteja em constante transformação, dada á caducidade de um mundo
que passa com a sua glória e com a sua pompa tão frágil coma a flor do campo
que não resiste ao sol do meio dia. Então, celebrar jubileus e bodas de
qualquer natureza honrosa e que mereça louvor, é recordar ao nosso coração de
que não precisamos nos submeter a esta lógica doentia e instável da moda, desta
insustentável leveza de nossa época. Não precisamos nos afligir tentando
descobrir a cada dia como ser mais felizes e como responder às expectativas dos
outros. Tudo o que precisamos é de perseverança, de constância e de certezas
absolutas para não sermos desintegrados e dissolvidos nesta cultura líquida e
fluída.
Rev. Luiz
Fernando Dos Santos
É Ministro da
Igreja Presbiteriana do Brasil em Itapira
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