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sábado, 14 de outubro de 2017

MENSAGEM PASTORAL

Protestantismo Católico ou Catolicismo Protestante?
“Há um só corpo e um só Espírito, assim como a esperança para a qual vocês foram chamados é uma só; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos” (Ef 4.4-6).

Um dos exercícios mais importantes ao celebrarmos os quinhentos anos da Reforma Protestante é o de recuperarmos a história. Precisamos revisitar o passado e resgatar os valores e os princípios que conduziram aqueles eventos. Esse processo pode ser chamado também de ‘refontanização’ do protestantismo, isto é, voltar as fontes do movimento iniciado por Martin Luther. Penso não ser exagero dizer que o protestantismo de maneira geral passa por uma crise de identidade e em muitos contextos, até mesmo de relevância. As muitas degenerações sofridas ao longo do tempo e a perda do senso do moto: “Semper Reformanda”, fez com que o protestantismo se diluísse num mar de subjetivismo bíblico, doutrinário e ideológico. Valeria a pena perguntar contra o quê protestam os protestantes do século XXI? Protestar não significa rebelar, reclamar, levantar-se contra as autoridades constituídas, pura e simplesmente. Protestar significa reivindicar a integridade ou verdade de alguma coisa ou de algum fato, significa levantar-se contra um desvio ou o falseamento de algo. No caso dos protestantes, para melhor situar, o caso de Martin Luther, o protesto era contra os desvios da Igreja em relação à integridade do Evangelho de Cristo. O que estava sob a mesa para o debate não era em primeiro lugar a estrutura ou política da Igreja, nem a sua governança. A pauta era toda governada quanto ao vilipêndio sofrido pelo Evangelho ao privilegiar as obras em detrimento da fé, o mérito humano sobre a graça, a tradição sobre as Escrituras. Contra essas coisas os reformadores em geral ergueram a sua voz. À luz dessas coisas fica fácil compreender que os reformadores nunca quiseram ou deixaram na verdade, de serem católicos. Não foi contra o substantivo “católico” que eles protestaram, mas contra o adjetivo “romano”. Os que acusam as igrejas protestantes por causa de sua divisão em mais de trinta e seis mil denominações (sem contar as igrejas independentes), acusando-as de cisma, tem certa razão em fazê-lo. De fato, uma das consequências nefastas da Reforma Protestante foi mesmo a divisão da Igreja e contra esse fato não há defesa. Contudo, o que não faltam são as atenuantes para esse erro. Mesmo porque essa divisão não é unilateral. Absolutamente. A sede de poder, os interesses políticos e financeiros e outros pecados inomináveis dos católicos romanos, sobretudo dos Papas que antecederam a reforma e aqueles que a sucederam, bem como o esvaziamento pastoral do ministério dos bispos que se viam a si mesmos como príncipes a quem todos deviam curvar-se e não servos que deveriam lavar os pés aos discípulos e etc. Tudo isso também contribuiu para que portas para o diálogo jamais fossem abertas para fazer transitar a verdade, de ambos os lados. Todavia, os “romanistas” deturparam a noção de catolicidade confundindo-a com a unidade em torno do Papa, com profundos prejuízos para a verdade. Ainda hoje a Igreja Católica Romana defende essa postura, basta ler o documento Dominus Iesus, da Congregação para a Doutrina da Fé de 06 de agosto de 2000 assinado pelo então Cardeal Ratzinger, que seria mais tarde o Papa Bento XVI. A ala da igreja que se separou de Roma continuou católica e entendeu essa catolicidade, sobretudo, em termos de diversidade e pluralidade de comunidades interpretativas das Escrituras em matérias secundárias e terciárias da fé, conquanto o fulcro do credo apostólico, verdades portanto, inegociáveis do Evangelho, sejam preservadas intactas. O preço a se pagar, além desse da doentia e sim, maléfica realidade das quase incontáveis denominações, é a impossibilidade de uma unidade mais historicamente verificável. Contudo, no gene do protestantismo, dos insights de Luther, encontramos o seguinte princípio: “A verdade a qualquer preço, a unidade se possível”. A verdade deve ser o critério que valida a unidade e não o contrário. Depois de quinhentos anos temos ainda um longo caminho a percorrer, nós Católicos Protestantes precisamos reformar e renovar o nosso Protestantismo Católico. Mais preocupantes para o testemunho do Evangelho e a glória de Cristo são os pecados, enganos, erros e fraudes que se encontram em nossa ala “Evangélica” do que aqueles que eventualmente ocorram do lado “Romano”. Reivindiquemos a integridade do Evangelho em nosso meio. Martin Luther não fundou uma outra Igreja. Isso não é possível, só Cristo pode fazê-lo. Ninguém pode colocar outro fundamento: “Porque ninguém pode colocar outro alicerce além do que já está posto, que é Jesus Cristo” (1 Co 3.11). O que houve foi uma sofrida separação, e peço a Deus que seja temporária e apenas no plano da história e que o Senhor nos purifique e cure a todos. Rogo para que esteja perto a realização da promessa do Senhor: “Tenho outras ovelhas que não são deste aprisco. É necessário que eu as conduza também. Elas ouvirão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor” (Jo 10.16). 
Reverendo Luiz Fernando 
é Ministro da Palavra na Igreja Presbiteriana Central de Itapira.

sábado, 30 de setembro de 2017

MENSAGEM PASTORAL

Quam Multis Thesibus
"Deus é que tem sabedoria e poder; a ele pertencem o conselho e o entendimento” (Jó 12.13).
“Os planos fracassam por falta de conselho, mas são bem sucedidos quando há muitos conselheiros” (Pv 15.22).

O mês de outubro traz à reflexão os eventos da Reforma Protestante. A data referencial é a de 31 de outubro de 1517, quando o monge agostianiano Martim Luthero teria afixado suas ‘noventa e cinco testes’ às portas da catedral de Wittemberg na Alemanha. O gesto de Martim não foi nenhum desrespeito ou um ato de provocação ou soberba como erroneamente alguns afirmam. Antes, Martim Luthero simplesmente usou com eficiência um meio de comunicação e divulgação próprios à época. Às vésperas do dia de Todos os Santos, uma data religiosa muito concorrida, com enorme afluxo de pessoas de todas as classes sociais, o jovem sacerdote e monge quis convidar para um tempo de conversas e debates as ideias mais inquietantes sobre fé e vida nos seus dias. As campanhas de João Tetzel, um frade dominicano, que percorria cidades e aldeias numa cruzada pela venda de indulgências e um bom lugar no céu roubava a paz e desassossegava a vida pacata de muitas paróquias e ao mesmo tempo, angustiava e atormentava as almas confusas e cheias de escrúpulos e temores sem fundamento, de pobres e ignorantes que não possuíam recursos para assegurar a sua salvação. Mas, como a ignorância das “coisas de Deus” não era exatamente uma prerrogativa dos pobres, muitos da burguesia, aristocracia e até da nobreza, cediam as impressionantes imagens do inferno produzidas pela desesperançada pregação de Tetzel. Aqui se pode comprovar como uma religião sem as Escrituras, sem a pregação genuína das Escrituras, pode ser uma fonte cruel de escravidão e tormentos psíquicos e espirituais. Para facilitar o debate Martim Luthero adiantou os pontos que desejava abordar e discutir com a publicação de suas noventa e cinco teses, que aliás, também teriam sido gentilmente encaminhadas para o bispo daquela diocese. Os desdobramentos desde esses dias são evidentes, a incapacidade de diálogo, as trocas mútuas de acusações, as perseguições, a ruptura da Igreja (nunca desejada por Luthero), a recusa do Papa em acatar as contribuições dos Reformadores (coisa que esporadicamente aconteceu pontualmente mais tarde no Concílio Vaticano II e em alguma ou outra manifestação dos Papas de 1958 para cá). Mas, como insinua o título em latim dessa pastoral, quantas teses mais seriam necessárias para os dias de hoje? É certo que a Igreja necessita de reforma. A Igreja Evangélica carece de reforma tão urgentemente como poderíamos supor em relação a Igreja Católica. A Igreja Evangélica no mundo inteiro, em todas as tradições, reformada, arminiana, pentecostal e as ondas carismáticas, vivem dias difíceis. A fidelidade às Escrituras tem sido substituída pelo pragmatismo. O importante é aquilo que dá certo, que atrai as multidões, que fideliza a clientela, que atende aos gostos e às necessidades carnais dos crentes. Por isso, o espaço que antes honrava a pregação expositiva deu lugar ao ‘talk show’ (inclusive com Satanás em algumas agremiações), apresentações infindáveis de testemunhos e depoimentos que mormente exaltam o carisma do líder ou a campanha realizada. A Palavra também perdeu espaço para o “louvorzão”, para o show gospel e suas ministrações rasas, cheias de clichês, psicologismos e expressões culturais mundanas. A alegria como qualidade do coração regenerado e abastecido das Escrituras, bem como a alma jubilosa pela exposição da verdade no sermão, foi substituída por histeria, por emocionalismo profissional e intencionalmente produzidos por toda sorte de recursos audiovisuais. A contrição do coração, a teologia da cruz, o chamado à santidade, foram trocados por “você merece ser feliz”, “não aceite o sofrimento”, “seja um vitorioso” (geralmente se trata de vida financeira). As Igrejas Evangélicas têm flertado perigosamente com os pecados de Tetzel e suas indulgências. Vendem bênçãos em produtos ungidos, de sabonete e lenços à miniaturas de cajados, relíquias de ‘santos vivos’, isto é, objetos de homens tido por especiais, até pirâmides financeiras. O mercado da fé está em franco crescimento e não conhece crises, antes, se alimenta das crises alheias. Precisamos de novas teses que desafiem a relação da igreja, seus líderes e a política (com alguns políticos em especial e como bancada representativa inclusive). Cristo denominou seus discípulos como ovelhas e aproveitando-se disso, não poucos pastores transformaram suas comunidades em currais eleitorais, e como escrevi uma vez, o mais asqueroso atentado contra a democracia é o voto de cajado, aquele em que o fiel é constrangido a votar no candidato do pastor, quando ele mesmo não o é. De quantas teses mais precisaríamos? Não sei ao certo, mas quinhentos anos depois, faríamos bem se aceitássemos o gentil convite de Luthero para trocar ideias. Aceita?
 Reverendo Luiz Fernando 
é Ministro Protestante na Igreja Presbiteriana Central de Itapira

sábado, 23 de setembro de 2017

MENSAGEM PASTORAL

O Pão da Vida
“Pois o pão de Deus é aquele que desceu do céu e dá vida ao mundo" (Jo 6.33).
“Então Jesus declarou: "Eu sou o pão da vida. Aquele que vem a mim nunca terá fome; aquele que crê em mim nunca terá sede” (Jo 6.35).

O mundo vive esfaimado. Todos temos fome. Mesmo os abastados, têm fome de algo, isto é, carecem de alguma coisa que lhes dê sentido e profundidade à vida. Não foi à toa que Jesus escolheu o pão, símbolo da necessidade mais básica do homem para identificar o seu corpo e a sua presença entre nós. Este estado permanente de carência e insatisfação que nos acomete a todos se manifesta de muitas formas. Os pobres têm fome de pão e de justiça, os vulneráveis, fragilizados e excluídos têm fome de dignidade, os enfermos de toda sorte têm fome pela vida. Todos os pecadores têm fome de misericórdia e perdão. Ao declara-se pão, Jesus não só se declara alimento, mas faz um gracioso convite para os homens. Ele nos convida para o banquete da vida. Evidentemente que não existe banquete sem alimento, entretanto o comer humano é algo muito diferente do alimentar-se de um animal. Na verdade, o que dá sentido ao banquete são os comensais, as companhias dão todo sabor ao comer juntos. Daqui surge a expressão ‘companheiro’ que significa, comer juntos o pão. E é a isso mesmo que Jesus nos convida, assentar-se à mesa com Ele para comermos juntos o alimento que Ele mesmo serve ao dar-se à nós. Uma vez alimentados pelo ‘Pão Jesus’ em seu Evangelho e na tipificação eucarística, encontramos a vida que tanto ansiamos, todavia, essa vida que possuímos não nos pertence de todo, nós somos alimentados dela para nos tornar alimento para os que ainda não a têm. O Senhor Jesus disse que desceu do céu, como pão vivo, para dar vida ao mundo. Aqueles que por Ele e dele foram alimentados, são seus companheiros e participam daquilo que Ele é e veio fazer, pois foi ele mesmo quem disse aos seus discípulos quando confrontados pela miséria dos homens: “Respondeu Jesus: Eles não precisam ir. Deem-lhes vocês algo para comer" (Mt 14.16). Assim, entendemos que a lógica do pão é a partilha, a solidariedade e a comunhão. Os discípulos experimentaram e testemunharam a solidariedade que Jesus teve quando manifestou compaixão pela multidão que era como ovelhas que não têm pastor e não ficou indiferente aos seus sofrimentos. Já os primeiros discípulos conheceram o estilo de vida comunitária que necessariamente surge dos que comem do pão da vida: “Eles se dedicavam ao ensino dos apóstolos e à comunhão, ao partir do pão e às orações. Todos estavam cheios de temor, e muitas maravilhas e sinais eram feitos pelos apóstolos. Todos os que criam mantinham-se unidos e tinham tudo em comum. Vendendo suas propriedades e bens, distribuíam a cada um conforme a sua necessidade. Todos os dias, continuavam a reunir-se no pátio do templo. Partiam o pão em suas casas, e juntos participavam das refeições, com alegria e sinceridade de coração, louvando a Deus e tendo a simpatia de todo o povo. E o Senhor lhes acrescentava todos os dias os que iam sendo salvos” (At 2.42-47). Essa “fotografia” da Igreja primitiva permanece o ideal da vida cristã para a igreja de todos os tempos, ainda que a aplicação possa e deva ser diferente, os princípios são imutáveis e irrenunciáveis. Os elementos centrais da ética e da espiritualidade cristãs podem ser encontrados nesse texto, ensino, comunhão, partir o pão, orações, solidariedade e compaixão comprometida, alegria, louvor e sinceridade de coração. Podemos afirmar com toda tranquilidade que a igreja de Jesus é a comunidade do pão e da Palavra. Comunidade da palavra que é pão. Comunidade que se faz pão porque alimentada pela palavra. Palavra que verdadeiramente alimenta porque o pão é Jesus. Assim, podemos medir a estatura e a maturidade de uma comunidade de discípulos na medida em que ela se compromete com as fomes ao seu redor. Quando os que a ela se achegam encontram Jesus servido no sermão, Jesus convidando para o banquete no amor dos discípulos, Jesus transformando vidas chamando para servir. Essa maturidade é comprovada quando a comunidade percebe que a ‘sala de jantar’ ainda não está repleta, que ainda há lugares à mesa, e ela sai pelos caminhos e encruzilhadas da vida e ao encontrar mulheres, homens, crianças, drogados, mendigos, prostitutas, homens de negócios, intelectuais, pobres e ricos, todos alienados e experimentando o vazio existencial, os convida para o banquete da vida. E, para lhes convencer de que o pão que está reservado para eles é incomparável em sabor e nutrição, leva-lhes um ‘bocado’ de Cristo em forma de amor, respeito, graça, misericórdia e serviço. Sem o pão que Deus nos dá em Jesus a vida não faz sentido algum. Senhor, dá-nos sempre desse pão e teremos vida em abundância! 
Reverendo Luiz Fernando 
é Ministro da Palavra na Igreja Presbiteriana Central de Itapira

sábado, 16 de setembro de 2017

MENSAGEM PASTORAL

Reforma Protestante: 500 anos depois
“Jesus foi considerado digno de maior glória do que Moisés, da mesma forma que o construtor de uma casa tem mais honra do que a própria casa” (Hb3.3).
“Pois ele esperava a cidade que tem alicerces, cujo arquiteto e edificador é Deus” (Hb 11.10).

Estamos próximos da data referencial para as comemorações dos quinhentos anos da Reforma Protestante. Desde aqueles dias longínquos de 31 de outubro de 1517 o mundo sofreu profundas transformações. Deus serviu-se de muitos movimentos na filosofia, na política, na arte e na economia que já estavam em curso no século dezesseis, como o cenário ideal para a Reforma de sua Igreja. Inegavelmente, Martinho Lutero nunca teve a intenção de separar-se da Igreja então estabelecida. Na verdade, um grande número de suas teses e durante um certo período de suas contestações, o monge alemão procurava isentar o papa de quaisquer erros, pecados ou cumplicidade com os desmandos que ele estava denunciando. Somente com o passar do tempo e com o desenrolar dos acontecimentos, Martinho Lutero deu-se conta de que a Igreja não estaria aberta ao diálogo e às suas possíveis contribuições como teólogo, professor e pregador das Escrituras. Fundamentalmente o movimento da Reforma é um evento de natureza religiosa e eclesiástica. Todavia, não era um movimento que visava reformar a estrutura governamental e política, não deseja criar novos dogmas ou novos cânones. Como disse, nem mesmo a autoridade do papa ou a legitimidade da sucessão episcopal foi questionada nos primeiros ventos reformadores. A reforma Protestante foi o desejo de voltar o mais próximo possível, na práxis, na ética, no culto e na vida da Igreja e dos cristãos, ao padrão encontrado nas Escrituras. Para tanto, nossos pais reformadores passaram a testar no crivo das Escrituras todas as coisas que envolviam a dinâmica da fé. Aquilo que não pode sustentar-se diante da Palavra de Deus ou que não foi possível provar como sendo diretamente ordenado pela Bíblia ou que pela luz da natureza e prudência cristã, não encontrasse respaldo nas orientações gerais inferidas da revelação bíblica, deveria ser abandonado sem mais considerações. À luz da Palavra de Deus mesmo a Tradição salutar e multissecular precisou ser avaliada, purificada e validada. Antes disso, a Bíblia para comprovar o seu valor necessitava da autoridade dos pais da igreja e dos antigos doutores, com suas interpretações, intuições e tratados. A Reforma inverteu essa lógica, desde então, não importa quem tenha dito o quê, um pai da Igreja da envergadura de um Agostinho, um teólogo da estatura de Tomás de Aquino ou um célebre papa como Gregório o Grande, esses só devem ser ouvidos se o que ensinam sobrevive ao teste da Palavra de Deus. Se com ela se harmoniza e se subordina, seria uma temeridade não ouvi-los e com eles aprender. Se o que ensinam, contradize a palavra de Deus, seria loucura, pecado, dar-lhes ouvidos e imitar a sua vida e a fé. Assim, da cátedra ao púlpito, da sacristia ao altar, dos claustros à paróquia, liturgia, pregação e ética foram sofrendo profundas depurações, correções, reformas e sendo adequadas e harmonizadas com a Palavra de Deus. E a consequência disso tudo é que o século dezesseis viu surgir um novo homem, o ‘Homo Reformatus’. Esse novo homem não é menos religioso que o seu ancestral medieval, todavia a sua fé é mais racional, mais inteligível, mais provada e alicerçada. Sua experiência do sagrado não é ‘magiada’, supersticiosa e refém do ‘tremendo sobrenatural’ que era representado nas liturgias misteriosas e incompreensíveis. O adorador reformado adora com a mente, com o entendimento, seu culto é racional na medida que é uma resposta amorosa ao Deus que abre diálogo com ele mediante a clareza e simplicidade das Escrituras. Esse novo homem forja também uma nova sociedade, uma nova cultura. Redescobre a partir da Bíblia a sacralidade e a santidade do casamento. Redescobre o casamento como um meio natural e ordinário para a santificação dos cristãos. Passa a entender que os cônjuges são chamados a mesma perfeição, ás mesmas virtudes e ao mesmo estado de santidade do que aqueles que emitiam seus votos monásticos em uma ordem religiosa. O trabalho manual, a geração de renda, a dignidade da pessoa humana, da mulher, da criança e a popularização da alfabetização são outras afirmações originadas a partir de um novo entendimento da fé, da relação com Deus com base no pacto de graça realizado exclusivamente por Cristo. Quinhentos anos depois, o canteiro de obras da Reforma da Igreja permanece ativo, ainda, como sempre e infelizmente, os operários são poucos, mas as demandas ainda estão aí. Precisamos pedir a Deus que esse homem novo, o homem bíblico, o ‘homo reformatus’, continue a ser gerado pela fé a fim de que essa obra iniciada e tantas vezes interrompida, adiante os seus dias, para que de cada povo e nação, surja uma igreja fie. E assim, esteja muito, muito perto, a volta gloriosa de Jesus e aí, uma Igreja nova e acabada seja por Ele resgatada. Que a Reforma continue! 
Reverendo Luiz Fernando 
é Ministro da Palavra na Igreja Presbiteriana Central de Itapira

sábado, 9 de setembro de 2017

MENSAGEM PASTORAL

Domínio Próprio
“Sede sóbrios; vigiai; porque o diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar” (1.Pe. 5.8).
“Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio. Contra essas coisas não há lei. Os que pertencem a Cristo Jesus crucificaram a carne, com as suas paixões e os seus desejos” (Gl 5. 22-24).

Muitos são os efeitos da queda na natureza humana. Os efeitos noéticos são aqueles que dizem respeito à nossa capacidade intelectual. Nossa inteligência ficou seriamente comprometida. Nosso julgamento e nosso raciocínio estão condicionados pelo pecado, de modo tal, que nem sempre discernimos com clareza e com base na verdade e nem sempre julgamos retamente todas as coisas. No que diz respeito às verdades transcendentais, sobre tudo essas, nunca temos acesso a elas desprovidos do auxílio da graça. Quando interessados, à parte da influência do Espírito Santo, fabricamos nossos ídolos, cultuamos a nossa própria vaidade e a nossa sensualidade. Vale para os nossos desejos e apetites, o que dissemos de nossa mente e de suas operações intelectuais. A nossa vontade e as nossas inclinações também foram afetadas gravemente pela presença do pecado. Arrastados pela cobiça do nosso coração, somos quase que controlados por nossos apetites, de modo que se a nossa vontade não for modificada e submetida, andaremos somente atrás de nossos deleites. Na verdade, não fazemos muitas coisas contrariados.  Não seriamente contrariados. Mas, nos apressamos em correr, e suportamos até mesmo alguns dissabores, para no fim tomarmos posse daquilo que nos dá gozo. Quando não estamos sob a poderosa influência do Espírito Santo, agindo por meio de nossa natureza regenerada, tudo o que fazemos é viver em contínua insatisfação. E, quanto mais damos à carne o que ela reclama e deseja, mais insatisfeitos ficamos e quanto mais insatisfeitos, mais dados ao excesso. Essa insatisfação pode ser comparada ao uso de substâncias proibidas. Temos a necessidade de aumentar a dose e mesmo a potência, substituindo drogas mais ‘leves’ por substâncias mais poderosas. ‘Mutatis mutandis’, a verdade e a experiência são as mesmas. Além dos excessos, andamos á cata de novas e mais prazerosas experiências. Não por nada vivemos numa sociedade de ostentação vertiginosa, busca enlouquecida de prazeres sensoriais (nem mesmo a religião escapa disso) e de vidas e relações fragmentadas e diluídas. Poderíamos incluir aqui questões complexas de moralidade como o aborto, o ‘transgenismo’ e outras formas e práticas em nome da felicidade e do prazer que tocam os excessos. Mas essa é uma discussão para outra hora. O cristão maduro, que de fato nasceu de novo e tem o Espírito Santo e busca a orientação na Palavra de Deus, aos poucos e sempre progressivamente, vai produzindo o fruto desse Espírito em que o domínio próprio é parte do caráter que é formado no discípulo que se configura a Cristo. O domínio próprio nada mais é do que a sujeição da natureza carnal, da vontade, do desejo e do prazer à mente racional curada pelo Espírito Santo e a vontade de Deus. O Cristão não se pergunta apenas se pode ou não pode, mas também se deve fazer esta ou aquela escolha. Ele deve assim proceder: Ir à Lei para ser restringido moralmente em sua ação. Ir ao Evangelho para conduzir-se em sua ação recebendo orientação. Olhar para Cristo e imitar o seu Senhor. Nos três casos, é sempre o Espírito quem ilumina, conduz e empodera a vontade para agir em conformidade com o novo estado em que esse homem regenerado se encontra. O domínio próprio nos leva a evitar todo e qualquer excesso, inclusive os lícitos e aceitáveis. Qualquer coisa que possa tirar do cristão a sobriedade é por si mesma estranha e pecaminosa. Excessos na comida que enfermam o corpo, na bebida que roubam o discernimento, no trabalho que escravizam, no lazer que tornam o homem e a mulher superficiais, na religião que o fanatizam e em qualquer outra área são contrárias a vida em Cristo. Mas, também precisamos de domínio próprio sobre o nosso temperamento, devemos ter comedimento quanto à ira. Homens e mulheres de pavio curto não fazem jus ao Mestre Jesus manso e humilde de coração. Precisamos de domínio sobre a língua, devemos ser moderados no falar, usar linguagem sóbria e nunca sermos detratores ou fofoqueiros. Precisamos de equilíbrio na mordomia de nossos bens, tanto o pródigo quanto o avaro não vivem vidas que demonstrem confiança e gratidão para com as provisões de seu Senhor. Uma vida de domínio próprio nos ajudará a saborear e a viver cada aspecto da vida com mais sensibilidade, prazer, contentamento e alegria. Domínio próprio é o outro nome da felicidade.
Reverendo Luiz Fernando 
é Ministro da Palavra na Igreja Presbiteriana Central de Itapira

sábado, 26 de agosto de 2017

MENSAGEM PASTORAL

Misericórdia, o coração do Evangelho.
“Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia” (Mt 5.7).

O centro das Boas Novas anunciadas por Jesus Cristo, que é a suma da esperança e da fé dos crentes do Antigo Testamento é a apresentação do Deus das misericórdias. Deus se compraz em mostrar misericórdia para com os pecadores arrependidos. Deus revela-se misericordioso sempre que invocado pela fé por homens e mulheres ruborizados pelo pecado, impotentes frente ao mal e incapazes de fiados em justiça própria, consertar a própria vida. A misericórdia da parte de Deus é uma ação criadora, que transforma a realidade, que cria nova oportunidade, nova vida, novas energias para continuarmos seguindo em frente. Os rabinos costumam ensinar que antes da criação do mundo visível, Deus criou o arrependimento e a misericórdia, mecanismos pelos quais Ele mesmo poderia relacionar-se com as suas criaturas limitadas e passíveis de pecar, como foi o caso. Então, a misericórdia antecipou-se á Queda, de modo que o perdão já estava à disposição antes mesmo do pecado entrar no mundo. Ainda hoje, as misericórdias do Senhor continuam se antecipando a nós, elas se renovam a cada manhã, causa de não sermos consumidos e aqui está a nossa esperança e a nossa segurança (Lm 3. 21ss). A misericórdia é um santo antídoto contra as mais variadas enfermidades que grassam em nosso mundo. Nosso tempo reclama o exercício da misericórdia em muitíssimas frentes. Precisamos começar a viver a cultura da misericórdia em casa, de maneira especial, no casamento. Sem misericórdia, o ato gracioso e bondoso do coração de levar em consideração a fragilidade do outro, o gesto generoso de acolher e carregar o fardo da limitação do doutro, nenhuma relação pode ser saudável e duradoura. As cobranças insistentes por perfeição, as falsas e ilusórias expectativas que criamos em relação ao cônjuge, às vezes exigindo mais do que ele um dia prometeu dar ou pode oferecer, gera atritos e ressentimentos amargurados. A misericórdia no casamento acolhe e ama o outro não apesar de suas fraquezas, mas, justamente por causa delas. Não que a misericórdia deva nos fazer cúmplices dos pecados, nada disso, mas a misericórdia nos ajuda a oferecer toda sorte de auxílio, afeto e segurança psicológica e espiritual para que o outro possa se levantar e deixar para trás o erro. Onde não há misericórdia tudo o que fazemos é anotar as faltas mútuas para recíprocas acusações em tempos de dificuldades. A misericórdia torna a vida a dois, mais adequada, pacífica e gozosa. Nossos filhos precisam crescer na escola da misericórdia. Mormente nossas crianças crescem em um ambiente competitivo como a escola, os clubes e as rodas de amigos. Nossa cultura propõe uma espécie de darwinismo social onde só os mais fortes sobrevivem. Assim, a porta para a desumanização, a banalização da violência e a marginalização do fraco, permanece o tempo todo aberta. Sendo educados num ambiente misericordioso nossos filhos desenvolverão um espírito solidário, respeitoso, altruísta e compassivo. A misericórdia não permite a exacerbação da meritocracia e cria espaço para a partilha e a inclusão dos mais fracos ou incapacitados por quaisquer eventualidades. Essa misericórdia vivida no coração da família deve transbordar e “respingar” nas engrenagens da sociedade e na dinâmica da vida. A misericórdia deve assentar-se no banco do carona e ser uma boa conselheira para a mediação e mesmo o fim da violência no trânsito. Essa misericórdia deve estar na pauta de nossas reuniões de negócio, em nossas relações no trabalho, na condução da política e no coração da igreja. A misericórdia nos livra da obsessão por resultados, nos cura do perfeccionismo, nos exorciza do amor desmedido pelo poder e nos ensina a perder com honra e gratidão e a ganhar com humildade e ação de graças. Um coração cheio de misericórdia nos faz ter uma imagem mais adequada de nós mesmos. Porque só é misericordioso quem experimentou a misericórdia, logo, esse tem a dimensão exata de sua miséria, de sua fragilidade e está consciente de que seus pés também são de barro. Então, quem sabe-se agasalhado pela misericórdia de Deus em Cristo e cresceu na vivência dessa misericórdia em suas relações desde sua família e igreja, não tem outra opção que não ser agente desse amor curador e restaurador do Pai que pela misericórdia sempre faz novas todas as coisas.
Reverendo Luiz Fernando 
É Ministro da Palavra na Igreja Presbiteriana Central de Itapira

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

MENSAGEM PASTORAL

Duas tarefas e poucos operários
“E lhes disse: "A colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos. Portanto, peçam ao Senhor da colheita que mande trabalhadores para a sua colheita” (Lc 10.2).

A Igreja de Cristo está a todo tempo envolvida com duas tarefas em pleno andamento e ainda não acabadas. Uma tarefa ela recebeu desde os seus inícios apostólicos. A tarefa de ir até os confins da Terra levando o Evangelho de Jesus Cristo para o testemunho às nações. É necessário que todos os homens ouçam a pregação e o chamado ao arrependimento e que recebam em nome de Jesus Cristo o perdão e a vida eterna. Essa é uma tarefa que já avançamos muito, sobremaneira, nos últimos dois séculos. O movimento missionário é, pala graça de Deus, uma verdade nas igrejas mais jovens, aquelas usualmente chamadas do terceiro mundo ou do centro sul do planeta. As igrejas nascidas das missões na América Latina, África e Ásia estão respondendo ao chamado missionário e muitas delas dando de sua pobreza, enviando homens e mulheres ao redor do planeta para testemunharem do amor de Cristo. Mas, estamos longe de alcançar a meta proposta por nosso Mestre e Senhor. Ainda existem povos e nações inteiras alienadas de Cristo e ignorantes de seu Evangelho. Bilhões de homens e mulheres vivem nas trevas e nada sabem do destino último e terrível de suas almas sob a ira de Deus. Muitos vivem em toscas e cruéis idolatrias e em miseráveis condições de vida, exatamente por que ignoram a liberdade e a graça que há em Cristo Jesus. Aqueles países que um dia contribuíram para a expansão do evangelho, mormente a Europa e em certa medida, os Estados Unidos, hoje possuem igrejas débeis, inconsistentes e sociedades materialistas, consumistas e plurais. O Evangelho pouco ou nada influencia a vida das pessoas e em muitos países se quer pode ser proclamado publicamente.  Mormente nesses países, mas extensiva a toda a igreja, desde os dias da Reforma protestante, recebemos então a nossa outra tarefa, a de Reformar constantemente a Igreja. Devido aos pecados de seus filhos, santos e pecadores ao mesmo tempo, e aos ataques de Satanás e a corrupção presente e atuante no mundo, a Igreja pode e experimenta eventualmente, estágios de degenerescência. Esfria em seu amor, perde a sua paixão por missões e evangelização, deixa-se aprisionar pela máquina e pelas engrenagens da religião, tornando a relação com Deus e com os irmãos formal, burocrática e sem vida. Por vezes, a doutrina e a moral são contaminados pelo espírito de época e muitos elementos mundanos são incorporados ao ensino e à prática das igrejas, inclusive na adoração. O meio pelo qual a Igreja pode renovar-se e reformar-se constantemente, além da oração, é passar constantemente a sua doutrina, a sua ética e a sua liturgia no crivo purificador das Escrituras e submeter todas as coisas ao julgamento do Espírito Santo cuja sede e jurisdição é exatamente a Palavra de Deus. Ambas tarefas, Missões e Reforma, são empreendimentos que necessitam de trabalhadores, de muitos trabalhadores qualificados, genuinamente vocacionados, com maturidade e disposição para obedecer e perseverar até que tenham sido dispensados pelo Senhor. No caso das missões a demanda é por cristãos conscientes, mobilizados, compassivos e dispostos a obedecer. Não se trata de um chamado específico ou sobrenatural. Todos os discípulos de Cristo são testemunhas e por isso mesmo enviados ao mundo para dar a conhecer as insondáveis riquezas de Cristo. Estão unidos de tal maneira a Cristo que participam não só de sua vida, mas também de sua missão. Então, não se trata de um chamado especial, mas de uma obediência intencional. O destino e o local para aonde devo me dirigir para servir, será dado pelo Senhor da Missão por meio da Igreja, em oração, consagração e ouvida a Palavra de Deus que age no mundo. Para a tarefa de Reforma precisamos de homens e mulheres comprometidos com as Escrituras e que amem a sã doutrina. Homens e mulheres que se sujeitem em obediência às Escrituras no ensino e no testemunho da verdade, com disposição férrea para não negociar os essenciais da fé e nem se deixar capitular pelo pragmatismo, pela moda e novidades doutrinárias e que não aceitem sacrificar no altar do ‘sucesso’ ministerial a fidelidade a Cristo e a pureza da Igreja. Para esse fim a Igreja precisará de mestres e pastores que amem a Cristo e a sua noiva apegados às Escrituras e nada ensinando ou permitindo fazer que não esteja expressamente nelas ordenadas ou que pela luz da natureza e prudência cristã, sob a orientação geral das Escrituras, não possa ser oferecida à vida dos crentes. Nos dois casos, para as Missões e para a Reforma, a tarefa está inacabada e existem muitas vagas em aberto. Basta você dizer: ‘Eis-me aqui’.
 Reverendo Luiz Fernando 
é Ministro da Palavra na Igreja Presbiteriana Central de Itapira

sábado, 12 de agosto de 2017

MENSAGEM PASTORAL

Missão e Ação Social
“Mas, quando der um banquete, convide os pobres, os aleijados, os mancos e os cegos. Feliz será você, porque estes não têm como retribuir.” (Lc 14. 13,14)

A Igreja quando recebeu, ainda no Antigo Testamento, o seu comissionamento missionário, recebeu-o como um chamado para abençoar de maneira total e integral as nações (Gn 12). O conhecimento de Deus implicava necessariamente também na proclamação de uma libertação em termos totalizantes. Não somente a libertação da escravidão dos ídolos e das falsas religiões, mas também a libertação de toda sorte de tirania, opressão, escravidão (Ex 3) e também a diminuição das distâncias sociais e o socorro e a transformação da pobreza indigna e desumanizante. A responsabilidade social, bem como toda ação e assistência social são preocupações tais nas Escrituras que encontramos 97 citações para o termo “pobre” (88 no AT e 9 no NT), 63 citações de “pobres”(36 no AT e 27 no NT), 17 para “pobreza” ( 12 no AT e 5 NT). Também a riqueza de significado e a diversidade de vocábulos atestam como a Bíblia entende a multiforme variedade da pobreza: em hebraico: ANI: pobreza causada por aflição e opressão (Is 3.14). EBYON: Necessitado e dependente, o que passa necessidades básicas: Dt 15. RASH: Os empobrecidos por espoliação, o que ficou sem nada( 1Sm 2.8; 1Sm 12. 1-5).MACHSOR: Deficiente (Pv 6.10,11; Pv 21.17). DAL: Fraco, frágil (Am 5.11). RAEB: Faminto (Ez 18. 5-7). CHELKAH: Infeliz (Sl 10.14). Em grego no NT: PTOKOS: Mendigo, que não tem segurança alguma e é dependente dos outros (Lc 21. 2-4; Mt 26.11; 1Jo 3.17;  Mt 5.3; 2Co 8.9). Desde logo compreendemos que as Missões exigem este compromisso e esta responsabilidade para com o pobre e a pobreza, seja ela de que natureza for. Entretanto, o serviço social por si só, não legitima e nem esgota a índole missionária do povo de Deus. Outras instituições também fazem assistência social e ação social até mesmo com mais recursos, capacidade e eficiência que a Igreja. Também estes, segundo a esfera que lhes é própria, são instrumentos nas mãos de Deus. Todavia, para a Igreja, numa perspectiva bíblica, não há que se falar em Missões sem falar em ação social. Não existe missão parcial ou exclusivamente de natureza religiosa. Não existe legitimidade e nem autoridade em um Evangelho que só se preocupasse com a alma e o porvir. É certo que o anúncio, ensino e pregação da Palavra de Deus possuem a primazia. Foi para isto que fomos salvos, “para proclamar as grandezas, as excelências daquele que nos tirou das trevas” (1. Pe. 2.9). Entretanto, o anúncio deve ser acompanhado de sinais e gestos concretos que creditam o que falamos e ensinamos. A ação social, em forma de ministérios ou ONGS cristãos são a tradução concreta do amor que recebemos, sentimos, vivemos e queremos comunicar. Os pobres sempre desafiaram os discípulos e a Igreja em sua missão: “Vá vende os seus bens e dá o dinheiro aos pobres” (Mt 19.21). “Pois os pobres vocês sempre os terão consigo.” (Mt 26.11). “manda embora o povo para que possa ir aos campos e povoados vizinhos comprar algo para comer. Ele [Jesus], porém, respondeu: Dêem-lhes vocês algo para comer” (Mc 6. 36,37). “Se alguém tiver recursos materiais e, vendo seu irmão em necessidade, não se compadecer dele, como pode permanecer nele o amor de Deus?” (1Jo 3.17). E os discípulos e a Igreja nunca se furtaram a esta provocação, antes pelo contrário, respondeu aos anseios de Deus pelos desvalidos, reconheceu o rosto desfigurado e sofredor de Cristo nos pobres e rejeitados e deu os seguintes passos, sem os quais a nossa presença também em Itapira carecerá de qualquer validade ou relevância: 1. Devemos desenvolver e nutrir empatia e compaixão para com os abatidos: Mt 14. 14. 2: “teve compaixão deles e curou os seus doentes”. 2.  Socorrer imediatamente: “eu tive fome, e vocês me deram de come; tive sede, e vocês me deram de beber; fui estrangeiro e vocês me acolheram; necessitei de roupas, e vocês me vestiram; estive enfermo e vocês cuidaram de mim; estive preso e vocês me visitaram.” (Mt 25. 35,36). 3. Estruturar-nos: é o que aprendemos de Atos 6, na instituição dos diáconos. Devemos pregar com audácia o Evangelho. Devemos ser criativos e usar de boas estratégias para ganhar o maior número possível de almas para o senhorio de Jesus Cristo. Mas, jamais podemos esquecer a recomendação do Concílio de Jerusalém para a equipe missionária de Paulo: “somente nos pediram que nos lembrássemos dos pobres.” (Gl 2.10).
Reverendo Luiz Fernando 
é Ministro da Palavra na Igreja Presbiteriana Central de Itapira

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

MENSAGEM PASTORAL

Segurança
“Pois eu sou o Senhor, o seu Deus, que o segura pela mão direita e lhe diz: Não tema; eu o ajudarei” (Is 41.13).

Um dos hinos que eu mais gosto do hinário em uso da Igreja Presbiteriana do Brasil é o de número 144 “Segurança e Alegria”. De maneira especial gosto de meditar na primeira e na última estrofe: “Que segurança tenho em Jesus, pois nele gozo paz, vida e luz! (...) Firmado em Cristo, no seu amor, estou contente em meu Salvador! Esperançoso hei de viver por Jesus Cristo, por seu poder”. Sempre que o canto ou o escuto sendo entoado na assembleia litúrgica, vem-me à mente trechos dos salmos que em substância dizem a mesma coisa: “Retorne ao seu descanso, ó minha alma, porque o Senhor tem sido bom para você” (Sl 116.7) ou ainda: “De fato, acalmei e tranquilizei a minha alma. Sou como uma criança recém-amamentada por sua mãe; a minha alma é como essa criança” (Sl 131.2) e mais: “Quando a ansiedade já me dominava no íntimo, o teu consolo trouxe alívio à minha alma” (Sl 94.19). Esperança, consolo e segurança em certa medida são sinônimos nas Sagradas Escrituras e foram registradas para encher de paz o coração crente. Por isso devem ser ensinadas na Igreja, como a própria Palavra de Deus testemunha: “Pois tudo o que foi escrito no passado, foi escrito para nos ensinar, de forma que, por meio da perseverança e do bom ânimo procedentes das Escrituras, mantenhamos a nossa esperança” (Rm 15.4). Assim, um dos privilégios da vida cristã é que com o progresso na fé, somos envolvidos e tomados por um real sentimento de segurança e levados a ter esperança até mesmo quando a nossa vida parece estar ameaçada. Esta é a experiência de todos os grandes homens e as grandes mulheres da história sagrada. Abraão e Sara, Jó, Ana, Rute, Davi, Daniel e Paulo. Todos passaram por angústias. Todos Daniel e Paulo. Todos passaram por angústias. Todos viveram experiências doridas e difíceis que facilmente levariam à desesperança e a ruína. Todos experimentaram a falência das seguranças humanas e a caducidade de seus projetos e de suas estratégias pessoais. Não fosse a Palavra da promessa, não fosse os oráculos de Deus, não fosse eles se agarrarem a única realidade que não pode falhar ou mentir, que é exatamente o que Deus diz e oferece em sua Palavra, de pronto todos teriam perecido. Depois de verem seus corpos mortos pela idade e peregrinando na solidão ameaçadora do deserto, tudo o que restou a Abraão e Sara foi a promessa de Deus em dar-lhes um filho. Por isso viveram, a isso se agarraram e viveram o seu cumprimento. E o que dizer de Jó? Deixado em miséria viu ir embora de sua vida até a sua dignidade destruída em sua aparência desfigurada pela enfermidade. Todavia, pela Palavra de Deus aprendeu a paciência e não esmoreceu em sua esperança até ver dias melhores. O mesmo se pode dizer da estéril Ana, da viúva estrangeira Rute, do jovem fiel Daniel na cova dos leões e do apóstolo Paulo. Esse último deixou-nos uma lista completa de suas aflições pessoais. Chega mesmo a listar 17 perigos que angustiaram a sua alma e as projetou como reais para todos os cristãos. Aflições morais, físicas, psíquicas, emocionais, espirituais e ataques de forças sobrenaturais. Aflições do passado que humilham e assombram. Aflições do presente que abatem e desencorajam a alma. Aflições antecipadas por medo das incertezas do futuro e por fim, a certeza da morte física que aterroriza. Essa lista que cobre todo o espectro da vida humana está esculpida no memorável capítulo 8 da carta aos Romanos a partir do versículo 35. Nessa mesma perícope o Espírito Santo “soprou” no coração e na mente de Paulo para que registrasse uma das mais belas e essenciais passagens bíblicas para que um crente conheça, decore, ensine e por fim se agarre: “nem qualquer outra coisa na criação será capaz de nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8.39). Há uma outra passagem, do mesmo autor bíblico, que corrobora essa verdade: “Tudo posso naquele que me fortalece” (Fp 4.13). Assim, uma das mais belas e significativas experiências a que o Espírito Santo quer nos levar quando lemos as Escrituras e ouvimos um sermão bíblico é a de sentirmo-nos seguros e cheios de esperança a despeito de nossa condição momentânea e das circunstâncias que nos envolvem, ainda que muito difíceis de serem humanamente suportadas. Os cristãos nunca são deixados à própria sorte mesmo em dias de tentação, e essa é uma outra promessa a que você deve se agarrar: “Não sobreveio a vocês tentação que não fosse comum aos homens. E Deus é fiel; ele não permitirá que vocês sejam tentados além do que podem suportar. Mas, quando forem tentados, ele lhes providenciará um escape, para que o possam suportar” (1 Co 10.13). Em Deus, estamos sempre seguros!
 Reverendo Luiz Fernando 
é Ministro da Palavra na Igreja Presbiteriana Central de Itapira

sábado, 29 de julho de 2017

MENSAGEM PASTORAL

Sofrimento
“Se com ele sofremos, também com ele reinaremos” (2 Tm 2.12 a).

O sofrimento é uma experiência comum a todos os homens. Não há quem não sofra e ainda que muitos tenham todo o conforto que possa existir nessa vida, o sofrimento sempre encontra o seu espaço em nosso viver. Essa experiência perturbadora para a condição humana é de certa maneira o objeto de atenção da filosofia, da religião, da arte, das ciências em geral, do entretenimento e etc. Poderíamos afirmar que viver é uma tentativa de escapar, contornar, evitar e até negar o sofrimento. Filosofias e religiões orientais fazem de tudo para negar a realidade do sofrimento, quer pela alienação, pela renúncia das experiências sensitivas ou a prática de técnicas ou atividades para sobrepor-se a realidade deste mundo carregado de sofrimento. Mas, também filósofos ocidentais, desde os gregos antigos passando pelos céticos e existencialistas modernos e contemporâneos, tiveram que lidar a seu modo com o mal do sofrimento. E, também aqui, navegaram nas turvas e perigosas águas na negação, da alienação, da absurdidade e do niilismo. O cristianismo volta e meia, também se debate de maneira confusa, influenciado pelos citados acima. Todavia, o cristianismo genuíno, aquele sustentado apenas pelo ensino Bíblico, ensina que não só é real a experiência do sofrimento, mas também que é inescapável. O cristianismo prega que a presença e a influência do pecado nesse mundo caído é a causa primeira de todo o sofrimento. Cristãos e não cristãos estão sujeitos aos mesmos efeitos dessa presença do pecado e sua influência, no que tange o sofrimento. O fato de os cristãos serem objeto da graça redentora de Cristo e terem o seu pecado perdoado e não mais serem punidos por causa dele, isso não os isenta de sofrerem a sua ação no mundo. Ainda que não possam mais ser governados pelo pecado por pertencerem a Cristo, ainda sim são acossados por toda sorte de males que ele provoca. Assim, os cristãos possuem corpos vulneráveis, mentes impressionáveis, estão sujeitos a decepções, frustrações, insucessos, perdas e por fim a morte. Então, o que diferencia essa experiência do sofrimento entre os cristãos e os demais homens? Os cristãos por estarem vitalmente unidos a Cristo possuem uma nova perspectiva do sofrimento. Não procuran negar, relativizar ou deixar-se tomar pela perplexidade. Os cristãos entendem o sofrimento na dimensão da cruz do Salvador. O padecimento do discípulo faz parte de seu discipulado. O sofrimento para o cristão é como o cinzel nas mãos de um hábil escultor.  À sombra da cruz são forjados os grandes servidores do Evangelho e os homens de melhor caráter. O sofrimento para o cristão é parte de seu processo de configuração a Cristo. Para o discípulo maduro e consciente, ainda que o sofrimento nunca deva ser desejado, buscado e muito menos produzido, uma vez que é inerente à nossa condição humana, ele o entende como um selo sobre a sua vocação em Cristo, o sofrimento é um meio dado pela graça do Salvador. Em Cristo e só Nele, sofrer é uma bem-aventurança que nos faz mais dependentes, menos autossuficientes, mais gratos em tudo e por tudo. O sofrimento produz os mais ardentes buscadores de Deus e uma vez socorridos e auxiliados, os mais inflamados adoradores. Sofrer nos une mais perfeitamente a Cristo. Por último, para permanecer em comunhão com uma corrente puritana, sofrer, nos leva a desejar o Céu com mais paixão. Pois, é exatamente no Céu o único lugar onde a experiência do não sofrer, do gozo, da paz e da felicidade plena e perfeita é possível. Portanto, sofrer sem Cristo é como entrar num labirinto de porquês sem respostas ou no túnel escuro da desesperança sem ver a luz da saída. Sem Cristo, o sofrimento produz em nós, provoca em nós e faz vir à tona o pior que existe em nós. Sofrer sem a graça da união vital com Jesus Cristo pela fé leva-nos ao ceticismo, ao cinismo, à amargura, á murmuração e á maledicência e por fim a uma existência vazia e sem sentido. Porque os que sofrem agarrados à própria sorte não têm para onde fugir. Mas, cada discípulo do Senhor e cada um que se abre a Ele, pode ouvir constantemente o mais belo convite já feito nesse mundo de dor: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt 11.28-30).
Reverendo Luiz Fernando 
é Ministro da Palavra na Igreja Presbiteriana Central de Itapira

sábado, 22 de julho de 2017

MENSAGEM PASTORAL

Ser Igreja e ir à Igreja
“Não devam nada a ninguém, a não ser o amor de uns pelos outros, pois aquele que ama seu próximo tem cumprido a lei” (Rm 13.8)

Não é difícil encontrar as razões pela quais as pessoas frequentam uma igreja cristã. As pessoas "vão à igreja" por muitas razões diferentes: É seu dever. É um lugar para conhecer pessoas de influência. Seus filhos recebem instrução moral. Assistir à igreja alivia a culpa e declara a si mesmo e aos outros que eles são religiosos. A igreja cumpre o que Maslow chama de "necessidades de auto realização". Tudo está bem porque uma responsabilidade foi cumprida. Voltar-se para Deus, relacionar-se intimamente com Ele na comunidade cristã, descobrir sua vontade e desenvolver a disciplina para viver um estilo de vida cristão são frequentemente negligenciadas. A Igreja é considerada "um lugar" para ir, em vez de o povo de Deus em comunidade, um jeito de ser e de existir. Imagine igrejas onde os cristãos não são apenas espectadores, mas vivem em afetiva comunhão de vida. Os cristãos praticam os relacionamentos "uns com os outros" descritivos da comunhão cristã na Bíblia. Eles são o povo santo de Deus "vestidos. . . Com compaixão, bondade, humildade, mansidão e paciência .[Eles] se suportam uns aos outros e perdoam as queixas que eles têm uns contra os outros. [Eles] perdoam como o Senhor os perdoou” (Cl 3.13). O amor "liga-os todos em perfeita harmonia" (Cl 3.14). A igreja é a comunidade escatológica, que pertence a Deus e está em peregrinação através da vida ajudando uns aos outros a continuar como discípulos de Cristo e incentivando outros a se juntar a eles na jornada para chegar ao céu. Por isso, precisamos desenvolver sempre e cada vez mais um senso de família, de pertença e de interdependência. Evidentemente que o aspecto primário e inegociável do ajuntamento solene, a que damos o nome de Igreja, tem a ver com a adoração exclusiva a Trindade. Nos reunimos com frequência com o propósito de proclamar as Nos reunimos com frequência com o propósito de proclamar as grandezas de Deus, cantar e enaltecer os seus atributos perfeitíssimos, agradecer-lhe as suas bênçãos, os seus cuidados e etc. Nos reunimos para ouvir o que Ele tem a nos dizer em sua Palavra, para sermos ensinados diretamente por Ele através da leitura pública das Escrituras e do sermão, que é um meio de graça providenciado pelo Senhor para o nosso nutrimento espiritual. Todavia, além desses aspectos essenciais, existem outros igualmente importantes e entre esses se encontra a mutualidade cristã, o companheirismo, a amizade sincera e desinteressada, uma convivência terapêutica e curativa pelo exercício do amor fraterno, da compaixão e da tolerância. A comunidade dos discípulos de Jesus deve ser um lugar com marcas distintas do mundo também no que tange ao acolhimento, aceitação, inclusão e convivência com a diversidade. As Escrituras dão testemunho da beleza e da funcionalidade da vida fraterna na comunidade: “Melhor é serem dois do que um, porque têm melhor paga do seu trabalho. Porque se um cair, o outro levanta o seu companheiro; mas ai do que estiver só; pois, caindo, não haverá outro que o levante. Também, se dois dormirem juntos, eles se aquentarão; mas um só, como se aquentará? E, se alguém prevalecer contra um, os dois lhe resistirão; e o cordão de três dobras não se quebra tão depressa” (Ecl 4.9-12); e ainda “Levai as cargas uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo” (Gl 6.2); e mais: “Nada façam por ambição egoísta ou por vaidade, mas humildemente considerem os outros superiores a si mesmos. Cada um cuide, não somente dos seus interesses, mas também dos interesses dos outros” (Fp 2.3,4). Os textos apresentados aqui dão provas suficientes de como o Senhor idealizou a dinâmica da vida da Igreja. É bem verdade que a nossa experiência histórica nem sempre corresponde ao padrão Bíblico, mas isso ainda só testifica de que devemos buscar esse estado de coisas. Quando do primeiro homicídio ocorrido na história da humanidade, Caim, o primeiro assassino, ao ser inquirido por Deus do paradeiro de seu irmão Abel, respondeu: “Não sei; sou eu o responsável por meu irmão? " (Gn 4.9). Pensou Caim que com essa evasiva iria esconder e livrar-se de agravar o seu crime. Infelizmente há um pouco dos sentimentos de Caim também em nós. Quando frequentamos uma comunidade e esgotamos nosso relacionamento num intimismo egoísta com Deus e em relacionamentos fugazes e descomprometidos com os demais adoradores, abrimos mão de nossa responsabilidade para com os nossos irmãos a quem Deus nos confiou o cuidado e a proteção enquanto caminhamos juntos para o céu. Cumpra a ordenança de Jesus, ame e sirva os seus irmãos, cultive relacionamentos santos e faça da Igreja uma experiência antecipada do paraíso.
Reverendo Luiz Fernando
 é Ministro da Palavra na Igreja Presbiteriana de Itapira. 

sábado, 15 de julho de 2017

MENSAGEM PASTORAL

Espiritualidade (II) – Lectio Divina
“Meditarei nos teus preceitos e darei atenção às tuas veredas. Tenho prazer nos teus decretos; não me esqueço da tua palavra.” (Sl 118. 15-16).

A Igreja reformada sempre viveu uma tensão entre piedade e ortodoxia. Não raras vezes estas duas necessidades da vida cristã tocaram o extremismo a ponto de se excluírem quase por completo. Ortodoxia, isto é, o ensino e o cultivo da doutrina reta, sã, verdadeira, lógica, racional e fundamentada na literalidade da Bíblia, é como a âncora da alma em meio aos vendavais de heresias, modismos, falsos ensinos que grassam a religião. Sem ortodoxia não há segurança quanto a verdade e também não haverá uma ética e uma moral com valores absolutos. Tudo se torna relativo e plural. Entretanto, só a ortodoxia sem a abertura para experiências espirituais que “firam” a alma de amor e incendeiem o desejo e a vontade humana para se render, deleitar e querer mais de Deus e de seu amor e poder, é um caminho árido, sem vida, legalista que pode provocar endurecimento e esfriamento do amor nas relações comunitárias sem misericórdia, longanimidade ou humor. A piedade, a vida devocional, o cultivo de uma vida interior na íntima comunhão e amizade espiritual com Deus tem a propriedade de “temperar” a nossa personalidade, tornar-nos mais profundos e sensatos, mais sóbrios, equilibrados e humanos. A vida espiritual nos ajuda a domar os instintos da carne e nos dá maior sensibilidade espiritual pavimentando o caminho para uma convivência fraterna na comunidade menos estressante, mais calorosa, com mais alegria. Mas, vida espiritual descuidada da leitura, meditação e estudo das Escrituras facilmente descamba para a alienação, para o fanatismo e para o espírito de sectarismo. Para termos uma vida cristã saudável e uma Igreja equilibrada e sadia precisamos das duas realidades, a ortodoxia e a espiritualidade. Necessitamos de uma Teologia sólida, racional, Bíblica e de uma espiritualidade vibrante, profunda, com todas as faculdades da alma incendiadas de amor e desejos por Deus. A tradição reformada desde os seus inícios nunca quis organizar uma Igreja cerebral, intelectualóide, longe disso. Os reformadores sempre desejaram falar ao coração dos crentes e levá-los a experimentar das doçuras de Cristo e do céu. Sabiam, porém,que para a alma sentir de verdade precisa antes compreender a verdade. Fala-se á inteligência para se atingir os afetos. Prega-se às mentes para se tocar nas almas. Foi assim com os pietistas, com os puritanos, com os pregadores dos avivamentos e despertamentos. Mas, como um cristão e uma igreja podem cultivar estas duas dimensões ao mesmo tempo? Pelo estudo da Bíblia e pelo exercício das disciplinas espirituais recolhidas pela Igreja ao longo de sua bimilenar história. Dentre estas disciplinas se encontra a “Lectio Divina”. Esta modalidade de leitura bíblica foi a predileta dos pais da Igreja e foi sistematizada no século X por um monge cartuxo chamado Guigo. Entretanto, a “Lectio Divina”, também conhecida como leitura sapiencial da Bíblia como método de leitura e aplicação pode ser encontrada já na própria escritura, como atestam os Salmo 1 e 119 e a epistola de Tiago, apenas para ficar nestes exemplos. A leitura sapiencial das Escrituras se difere ligeiramente de um estudo Bíblico por seu escopo. Na lectio o que se deseja é saborear as delícias da Palavra de Deus e encontrar prazer nelas, é uma leitura devocional que leva em conta o estudo já feito anteriormente. Ma aqui, o que se deseja é meditar, memorizar, aquecer o coração, abastecer a alma de significado, orar com e a partir do texto, decorar uma sentença extraída do texto como um endereço, uma via espiritual para ser vivida naquele dia. O escopo da lectio é a contemplação da alma perdida de amor por seu Criador e Pai, inclinada de desejos afetuosos por seu Senhor e Redentor Jesus. Na “Lectio Divina” a contemplação prepara e estimula a ação que nos impede de viver um ativismo bobo, estéril e cansativo. 
Reverendo Luiz Fernando 
é Ministro da Palavra na Igreja Presbiteriana Central de Itapira

sábado, 8 de julho de 2017

MENSAGEM PASTORAL

Espiritualidade (I)
“Não rogo para que os tires do mundo, mas para que os protejas do maligno.” Jo 17.15.

A espiritualidade é um tema muito frequente nas preocupações da Igreja. Não é raro encontrar a frase de efeito numa oração: “Que a tua Igreja cresça em número e muito mais em espiritualidade.” Confesso que nunca entendi muito bem este pedido. Todavia, muitos líderes e muito crentes nutrem verdadeira preocupação com a questão da espiritualidade e muita coisa tem sido oferecida como a redescoberta dos clássicos devocionais cristãos, os mestres e escritores espirituais como Teresa D’Ávila, João da Cruz, Thomas Merton, Thomas à Kempis, todos católicos romanos tendo as suas obras publicadas e divulgadas por várias editoras cristãs evangélicas. Há também a valorização e a redescoberta das antigas disciplinas espirituais, como a Lectio Divina, o jejum, a direção espiritual, a oração centrante ou do coração, a contemplação e o silêncio. Todas estas coisas são boas e possuem valor se soubermos lançar mão delas com prudência, equilíbrio e sobriedade. O maior perigo para quem quer cultivar uma vida espiritual mais intensa e vivificada é a “fuga mundi”, ou seja, a noção de que quanto mais espiritual a pessoa é, mais distante ela será das realidades e vicissitudes humanas. Este escapismo espiritual sempre rondou o cristianismo, desde Pacômio, Teodósio e Orsiésio, iniciadores do movimento monástico no Delta do Nilo em meados do século III da E.C., até o neopentecostalismo atual, sempre houve quem enxergasse que espiritualidade fosse alguma coisa impossível de ser vivida no mundo. Ou ela é vivida num mosteiro, separado do mundo pela clausura e pela Regra, ou ela é alienada e produz um sub-cultura que demoniza o mundo e se fecha em guetos espirituais como em muitas igrejas evangélicas. Todavia, a espiritualidade é, antes de qualquer coisa, a abertura da inteligência e da vontade humanas para a influência e a condução do Espírito Santo. Não é necessariamente a prática de uma modalidade ou metodologia, mas a rendição e a submissão consciente e racional do homem ao governo de Cristo sobre a totalidade de sua vida. Quando esse processo tem o seu início com a diligente cooperação de nossa vontade logo aprendemos que a espiritualidade longe de ser um caminho de paisagem bucólica e serena é antes um confronto com os poderes deste mundo e sua maligna opressão. O maior exemplo disso é o próprio Senhor Jesus que foi levado ao deserto pelo Espírito Santo para ser tentado pelo Diabo: “Então Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo Diabo.” (Mt 4. 1). Outra prova irrefutável de que a espiritualidade é um confronto é o que lemos no livro de Efésios: “Vistam toda a armadura de Deus, para poderem ficar firmes contra toda as ciladas do Diabo...por isso, vistam toda a armadura de Deus, para que possam resistir no dia mau e permanecer inabaláveis, depois de terem feito tudo.” (Ef 6. 11.13). A armadura não é uma vestimenta para o lazer nem para o ócio, na verdade a espiritualidade é o revestimento necessário para uma batalha que se trava no campo do mundo e sem as armas e as armaduras da espiritualidade e sem o treinamento ou o cultivo da vida espiritual nos tornamos soldados ineptos e vulneráveis de Jesus. Uma espiritualidade autêntica, Bíblica, cristocêntrica será sempre o cultivo de uma vida íntima com Deus vocacionada à ação missional no mundo. Quanto mais íntimos em nossa vida com Deus, mais inseridos seremos no mundo. Quanto mais a nossa leitura Bíblica for séria e comprometida, nossa oração sacerdotal e intercessora e mais profunda a compreensão de nossa vida, profissão e mordomia como uma vocação ao serviço do Rei e do Reino, mais presentes nos faremos no mundo com a intenção de salgar, iluminar e fermentar pelo Evangelho e pelo testemunho de Cristo fazendo avançar o Reino sobre as fronteiras do inimigo levando a salvação a todo aquele que crê. Ser espiritual é ser missional. 
Reverendo Luiz Fernando 
é Ministro da Palavra na Igreja Presbiteriana Central de Itapira

sábado, 1 de julho de 2017

MENSAGEM PASTORAL

Paixão por Jesus
“Quem ama seu pai ou a sua mãe mais do que a mim não é digno de mim” (Mt 10.37).

A história da Igreja cristã foi em grande parte escrita em meio a dores, violências e com a cor do sangue de seus filhos. Não poucas vezes, outros de seus filhos, tomados de sentimentos nada cristãos ou ignorando a essência mesma do Evangelho, foram culpados das mesmas dores, violências e sangue de seus irmãos ou dos de fora.  Mas, há uma pergunta que deve ser feita. O que fez com que a igreja cristã sobrevivesse aos seus algozes de dentro e de fora e ao mesmo tempo, não sucumbisse às próprias misérias? Claro, que a presença de Jesus Cristo nela por meio de seu Espírito a preservou, puniu, corrigiu e restaurou de muitas maneiras ao longo dos séculos. Contudo, o que no coração e na mente dos cristãos os levou a viver com radicalidade tal o seu chamado, que a própria vida, bens, afetos e laços de sangue fossem em dado momento relativizados (nunca desprezados ou reputados a coisas ruins em si mesmas)? A resposta é uma só: A Paixão por Jesus Cristo. Foi o intenso amor que sentiam pelo mestre Jesus que os fez desejá-lo sempre e cada vez mais, de tal maneira, que estavam dispostos a sacrificar qualquer coisa, ainda que de muito valor, para jamais serem privados de Jesus. O amor a Jesus atraiu milhares de homens, mulheres e crianças para as arenas romanas para serem martirizados. Povos bárbaros e antigas culturas orientais massacraram outros tantos milhares de discípulos de Cristo. E, esse amor era de tal maneira patente e latente nos cristãos que muitos desses cruéis perseguidores foram levados a Cristo enquanto levavam os cristãos à morte. E assim, um a um, Romanos, Godos, Visigodos, Saxões, Germânicos, Escandinávos, Bretões, na medida em que feriam o corpo de Cristo, vivente misticamente em seus discípulos, o amor que fluía deste corpo curava a cegueira e a ignorância dos povos. Dando um salto na história, podemos falar a mesma coisa da Reforma, dos Puritanos, dos Pais Peregrinos, das Missões Modernas com Carey e os que vieram na esteira dele. Em todos os casos a paixão por Jesus Cristo fez com que os discípulos fossem muito mais longe, fossem mais corajosos, realizassem obras tais, que humanamente nem eles e nem nós saberíamos responder como isso teria sido possível. A Igreja contemporânea talvez seja uma grande admiradora de Jesus. Até lhe seja agradecida. Os Cristãos estão, de certa maneira, satisfeitos e confortáveis com Jesus em suas vidas. Entretanto, vivemos dias de muita gritaria nos cultos, muita pirotecnia nas liturgias, e muitas tentativas de tornar a mensagem culturalmente contextualizada nos mais diversos nichos. Ao mesmo tempo, assistimos todos os dias uma onda crescente de ‘desigrejados’, gente que não é capaz de sofrer aborrecimentos e nem está disposta a carregar os fardos uns dos outros. Todo dia encontramos irmãos, que se dizem irmãos, ameaçando deixar a igreja, abandonar o seu ofício ou ministério, só porque sentiu-se diminuído, não valorizado, contrariado em suas opiniões. Quanta gente tentando experimentar de tudo e não encontrando sentido em lugar algum. A pequena e até ingênua lista apresentada aqui é apenas sintomática. A enfermidade é justamente a abundância e amor por si mesmo e pouco ou nenhum amor por Jesus. Pelo menos não um amor apaixonado. Um amor que nos constranja, nos sufoque, nos desinstale de nosso comodismo aburguesado e de nossa visão superficial da vida. A Igreja contemporânea necessita urgentemente aprender de sua história, a começar pela paixão apostólica de um Tiago serrado ao meio, de um Estevão apedrejado, de um Pedro Crucificado de ponta-cabeça ou de Paulo decapitado. Todos discípulos apaixonados. E o que falar dos discípulos a quem Pedro escreveu ou os destinatários da carta aos Hebreus?  Homens e mulheres de quem foram confiscados bens, dinheiro, casas, chefes de família que perderam o posto de trabalho e de repente foram achados à margem da sociedade e tudo por seu amor apaixonado a Jesus Cristo. Quando comparado nosso amor tem sido barato demais, poroso demais, frio demais e covarde demais. Queira o Senhor visitar-nos com seu amor e levar-nos como Igreja e como cristãos a uma vida de radical paixão por Jesus Cristo, que nos amou por primeiro.
Reverendo Luiz Fernando 
é Ministro da Palavra na Igreja Presbiteriana Central de Itapira

sábado, 24 de junho de 2017

MENSAGEM PASTORAL

Bênção
“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nas regiões celestiais em Cristo” (Ef 1.3)
Vivemos em um mundo marcado pela maldição do pecado. As Sagradas Escrituras nos ensinam isso e a nossa experiência nos comprova todos os dias essa verdade. Claro, há muita coisa boa no mundo, a natureza continua, apesar dos ataques que sofre, exuberante e fonte de vida, saúde e prazer. As artes, a tecnologia e toda sorte de conhecimento tendem a tornar a vida humana mais prazerosa. Contudo, um olhar mais atento pode perceber a ambivalência de todas essas coisas e as inconfundíveis marcas da queda corrompendo, infectando e trazendo a morte exatamente por meio dessas realidades citadas. Quando lemos o livro do Gênesis nos capítulos de 1 a 11, encontramos ali a Queda do homem e a consequente entrada do mal e da morte no mundo, o homicídio de Caim, o dilúvio como punição sobre a maldade presente na humanidade e na criação e mais tarde, a flagrante desobediência e a arrogância presente no coração do homem, mesmo já tendo experimentado a punição. Todavia, a narrativa bíblica revela a disposição do coração de Deus em abençoar toda a criação e a humanidade. Já no Arco Íris, sinal visível colocado nas nuvens por Deus em sua aliança com Noé, o Senhor compromete-se a nunca mais destruir a criação, mas comunica que deseja preservá-la por meio das estações e do mandato cultural renovado com o seu servo. Em Abraão, na eleição do povo de Israel, encontramos um Deus determinado a abençoar. A punição não tem a última palavra no plano de Deus. A Aliança com Abraão e a promessa de fazer chegar a bênção a todas as famílias da terra é a solução dada por Deus para corrigir, restaurar, redimir e salvar o homem e a criação. E como Ele o faz? Por meio de seu povo. Esse povo deve carregar a promessa da bênção e a esperança de sua realização através dapromessa da bênção e a esperança de sua realização através da história. Em Jesus temos a plena realização dessa promessa e agora, por meio da Igreja, o Pai quer fazer chegar a sua bênção a todas as famílias da terra, a todos os povos, raças, línguas e nações. Essa bênção é Jesus Cristo, sua pessoa, seus atos redentores e seu Evangelho. A Igreja deve assumir-se como a portadora da missão de levar a bênção de Deus. Isso ela o fará por meio do engajamento missionário criativo, fiel, abrangente e apaixonado. Nosso planeta precisa da bênção de Deus. Vivemos dias confusos, desesperançados, com sombrias expectativas. A ecologia dá sinais de exaustão, de cansaço, fruto da ganância e da idolatria do dinheiro. E a resposta para esses dias está na bênção de Deus para as nações. O homem abençoado em Cristo há de assumir o seu propósito original de estar aqui na terra, cuidar da criação, zelar pelo jardim. A Igreja e cada cristão deve tornar-se a consciência viva, o testemunho consistente e o engajamento eficiente nas causas que defendam o meio ambiente e que promovam a sustentabilidade. É reconfortante saber que existem micros e macros movimentos nessas áreas. Saber que o ‘Greenpeace’, por exemplo, é uma iniciativa cristã evangélica nos dá grande motivação para o engajamento. A bênção de Deus quer libertar o homem da injustiça, da escravidão, das humilhantes condições sub-humanas. A bênção do Deus em Cristo deseja o fim das guerras, dos campos de refugiados, das torturas nos campos de prisioneiros e cadeias. O fim da marginalização da mulher e a exploração de vulneráveis. Aqui, graças a Deus, há cristãos igualmente envolvidos. A ‘Human Rights Watch’, uma agência mundialmente conhecida pela defesa dos direitos humanos, também possui inspiração original em um grupo de cristãos conscientes. Todavia, de todas as bênçãos com as quais o Pai está decididamente interessado em fazer chegar às nações, nenhuma delas tem mais urgência e necessidade do que o conhecimento de Cristo Jesus como único e suficiente Salvador. Nenhuma bênção é tão desesperadamente necessária do que as nações se colocarem sob o Senhorio de Cristo pela obediência da fé. Essa é a nossa identidade como o povo da bênção: “Vocês, porém, são geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo exclusivo de Deus, para anunciar as grandezas daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1 Pe 2.9). Como Igreja em Itapira e para o mundo sejamos o agente pelo qual a cura da terra e do homem alcance a todos pela bênção do Senhor. 
Reverendo Luiz Fernando 
é Ministro da Palavra na Igreja Presbiteriana Central de Itapira