Conversão Pastoral
“Disse Jesus: Pastoreie as minhas ovelhas.” (Jo 21.16 b).
O treinamento formal, a formação acadêmica e a
própria dinâmica da vida eclesial foram influenciados por uma cosmovisão
humanista e secularizada. Isto significa que em muitos seminários e faculdades
teológicas existe grande preocupação com a transmissão de conhecimento e o
treinamento de habilidades, do que necessariamente a formação do caráter e do
coração de pastor. Os futuros pastores são formados para gerar resultados e
responder á certas expectativas nem sempre requeridas por sua vocação. Muitos
ministérios estão reduzidos à programação de eventos, atividades e produção de
“coisas” religiosas. O pastor se vê muitas vezes como uma espécie de “promoter”
de eventos cristãos. Deve ser criativo, inventivo e agendar muitas atrações que
envolvam a comunidade e que atraiam ou conquistem a simpatia dos de fora. Outra
atividade que deturpa a natureza do ministério bíblico é a administração
paroquial. Os excessos no cuidado da vida financeira, na construção ou reforma
do templo, as muitas reuniões cuja pauta se esgota na avaliação do caixa da
Igreja, em estratégias de arrecadação de fundos e etc. exigem não só eficiência
administrativa, mas sobretudo uma perda considerável de tempo e de energia por
parte do ministro que deveriam ser utilizados em outras áreas mais condizentes
com o seu chamado. Isto sem falar de pastores que confusos ou perdidos em meio
aos dramas e conflitos do pastorado, buscam na psicanálise e na psicologia
meios absolutos para tratar e para responder às demandas da alma de suas
ovelhas. Uma conversão pastoral nestes casos começa com a retomada de uma
cosmovisão bíblica, ou seja, da totalidade do plano de Deus sobre o cosmo, a
humanidade e dentro dela a Igreja com sua missão e seu ofício. Aí se descobre também o lugar e o
chamado do homem para servir no ministério. Na cosmovisão bíblica da vocação
pastoral encontramos a prioridade da
qualificação do caráter (a primazia do ser), a genuinidade da vacação (a
primazia da graça e dos dons) e comissão e a obra (a primazia da missão). E
tudo começa na mais importante comunidade formadora de um pastor, a sua igreja
local. É a igreja local quem deve exercer a mais poderosa e determinante
influência sobre a formação do futuro pastor. A Igreja deve tomar consciência e
não pode abrir mão jamais de sua condição de comunidade formadora. Por isso, os
anos de engajamento voluntário no trabalho, na liderança de sociedades e
ministérios, a participação efetiva e afetiva na educação cristã, no
evangelismo e no discipulado e o relacionamento fraterno e respeitoso com o
pastor e toda a igreja são imprescindíveis para a formação do caráter cristão e
pastoral. Aqui o papel do Conselho (em se tratando de presbiterianos) é de suma
importância para as devidas testagens, avaliações e o devido acompanhamento
vocacional. Toda vocação nasce de um diálogo gracioso e íntimo entre o homem e
Deus. A Iniciativa, claro, é sempre de Deus e o homem responde e mantém este
diálogo aberto por meio da oração, das Escrituras e da obediência. É dentro
deste diálogo que se dá a primazia da graça e dos dons. É neste contexto que a
alma, a mente, o coração vão sendo equipados com os dons necessários para o
desenvolvimento do trabalho pastoral. A vida espiritual que nasce em casa, que
é abastecida na igreja local jamais poderia ser descuidada no processo
formativo do seminário ou da faculdade. A espiritualidade não deveria ser uma
cadeira no currículo, mas um estilo de vida a ser perseguido, desejado e vivido
pelo aprendiz. E por último a obra a ser realizada. O pastor é chamado para ser
um discípulo-ícone de Jesus Cristo o bom pastor. Mais que o administrador de
uma agenda programática, ele é chamado a viver em meio a seus irmãos como um
sinal vivente de Jesus Cristo o supremo pastor, dando a sua vida pelos irmãos.
É chamado para apascentar as ovelhas levando-as aos pastos mais verdes e tenros
não porque possui um GPS ou outro programa de rastreamento. Não. Mas porque ele
mesmo se alimentou, descansou e foi restaurado nestas paragens. É chamado a ser
exemplo a ser imitado, como ele mesmo imita o Senhor. Uma conversão pastoral
deve levar-nos a sermos especialistas nas coisas de Deus, peritos na alma humana,
conhecedores dos mistérios do Reino, mestres na fé e servidores da verdade.
Isso demanda tempo. Isso exige que as coisas primeiras sejam buscadas em
primeiro lugar!
Rev. Luiz Fernando - Pastor Mestre da IPCI
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