ANIVERSARIANTES IPCI
06/11 – José Sebastião Franco
01/11 – Neuza Rodrigues P. Canivezi
12/11 – Carlos Alberto Soares
Que nosso grande Deus derrame ricas Bênçãos sobre todos!!!
No dia primeiro de novembro as Igrejas Católica,
Anglicana e Luterana celebram a festa de todos os santos. Entretanto, as
ênfases são muito diferentes no propósito dessa celebração. Os
Anglicanos e os Luteranos fazem memória da vida e dos feitos dos santos de
maneira didática. Apresentam os santos como simples modelos de fidelidade a
Cristo e reafirmam a concepção de que a santidade é possível em todo e qualquer
estado de vida. Ensinam a partir das vidas humanas imperfeitas dos
santos, que sob os auspícios da graça, a santidade é possível a qualquer homem
e mulher. Os católicos além destes dois aspectos, ainda veneram os santos, lhes
oferecem orações, fazem a eles pedidos de intercessão, socorro em suas
necessidades e se confiam à sua proteção. Isto é impensável para Anglicanos e
Luteranos, isso é impossível aos evangélicos em geral e aos presbiterianos em
especial. Toda a nossa adoração, a nossa veneração, as nossas orações são
oferecidas exclusivamente a Deus por meio de Cristo. São os méritos de Cristo a
causa suficiente e eficiente de nossa salvação, santificação, proteção e
bem-estar geral. Escrevo esta pastoral porque no Brasil a Conferência
Episcopal (CNBB), transferiu esta festa para o domingo mais próximo do dia 1º
(no caso hoje), para que seus fiéis pudessem participar em maior número e com
maior proveito de suas celebrações. Não é porque essa solenidade nos seja
desconhecida e até estranha como protestantes que não mereça a nossa atenção e
uma reflexão apropriada. Na verdade, devemos refletir sobre a nossa mais
sublime vocação como povo de Deus, a santidade. Santidade não é uma opção no
cardápio da fé. Antes, é uma ordenança dada por Deus: “Sede santos porque eu o vosso Deus sou santo” (Lv 20.7). Desde o
Antigo Testamento tudo o que diz respeito a Deus é santo. O monte Sião é santo,
o sumo sacerdote é santo, Jerusalém é santa, as alfaias (roupas para o culto e
ornamentação do templo), os
utensílios para o sacrifício, a Arca da Aliança, enfim, tudo o que pertence a
Deus é santificado. A primeira noção então de santo é o de ser separado para
ser posse exclusiva de Deus e estar a seu serviço. Uma vez que fomos alcançados
pela graça de Cristo, regenerados, o Senhor produziu fé salvadora em nosso
coração, fez-nos participar da justiça de Cristo e habilitou-nos para a
santificação com os auxílios necessários e indispensáveis. Agora, como filhos adotivos nossa
razão de ser e de existir ganha nova dimensão e natureza. Fomos separados do
mundo, moralmente separados e purificados, para pertencer a Deus e viver para a
sua glória desde agora e para sempre. A outra noção de santo é aquela
que indica pureza, ausência de pecados, de maldade, inocência e amor pela
justiça e a verdade. Nossa pertença a Cristo e a presença do Espírito Santo em
nós, com os demais auxílios da graça nos fazem produzir e crescer em
santificação, a começar pela produção do fruto do Espírito: “Mas o fruto do Espírito é amor, alegria,
paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade” (Gl 5.22). Junto a esse
fruto passamos a desenvolver dons espirituais para o serviço, bem-estar de
nossos irmãos e a glória de Deus: “Se
alguém fala, faça-o como quem transmite a palavra de Deus. Se alguém serve,
faça-o com a força que Deus provê, de forma que em todas as coisas Deus seja
glorificado mediante Jesus Cristo, a quem sejam a glória e o poder para todo o
sempre. Amém” (1 Pe 4.11). A radicalidade do amor também é uma nota muito
característica dos santos: “Ainda que eu
fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o sino
que ressoa ou como o prato que retine. Ainda que eu tenha o dom de profecia e
saiba todos os mistérios e todo o conhecimento, e tenha uma fé capaz de mover
montanhas, mas não tiver amor, nada serei. Ainda que eu dê aos pobres tudo o
que possuo e entregue o meu corpo para ser queimado, mas não tiver amor, nada
disso me valerá. O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se
vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não procura seus interesses, não se
ira facilmente, não guarda rancor. O amor não se alegra com a injustiça, mas se
alegra com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor
nunca perece; mas as profecias desaparecerão, as línguas cessarão, o
conhecimento passará” (1 Co 13.1-8). Essas são características inerentes à
vida e ao caráter de um homem salvo em Cristo. Com maior ou menor intensidade,
essas manifestações deverão ser encontradas. Santidade aqui nessa vida, não
implica em perfeição absoluta. Infelizmente a presença e a influência do
pecado ainda estarão presentes enquanto vivermos, todavia, já não terão domínio
sobre os santos e esses não sentirão prazer ou conforto no pecado.
Todos os que estão em Cristo são verdadeiramente santos: “Se, porém, andamos na luz, como ele está na luz, temos comunhão uns com
os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado” (1
Jo 1.7).
O teólogo francês João Calvino gostava de ensinar, com
sólida base bíblica, que o coração do homem é uma fábrica de ídolos. Sempre que
o nosso coração se distancia milímetros de seu apego a Cristo, inevitável e
imediatamente ele fabrica uma incontável multidão de deuses que desejam lutar
dentro dele por cada nicho e cada altar, eclipsando assim a figura de Jesus
Cristo. Também com uma data tão auspiciosa como a abertura das comemorações dos
500 anos dos inícios da Reforma Protestante, pode e seguramente, nos oferece a
ocasião para grosseira idolatria. Há mesmo quem esteja até festejando o fato de
o Papa Francisco participar dessas comemorações na Suécia ou ainda sinta-se
valorizado e reconhecido porque um grupo de peregrinos luteranos foi recebido
com uma imagem de Lutero na Sala de audiências Paulo VI no Vaticano um dia
desses. Entretanto, quais são os reais perigos de uma ‘Reformalatria’? O
primeiro deles me parece ser ainda aquele de pensar que antes de 31 de outubro
de 1517 não havia cristianismo, igreja e evangelho no mundo. Acreditar que do
capítulo final de Atos 28 até os dias de Lutero a obra de Deus permaneceu numa
espécie de animação suspensa e a história da igreja não passa de uma tragédia
religiosa repleta de hereges e ofensas dirigidas a Deus em forma de culto. Na
verdade, a Reforma aconteceu porque esses e outros erros existiam mesmo. Mas
existiam não num vácuo, mas na dinâmica da vida da igreja estabelecida que
durante a sua história produziu pela graça de Deus homens e obras
extraordinários e a Reforma apenas intentou, vinda do mesmo Deus,
corrigir tais erros. Mesmo porque, os Reformadores eram homens que viviam
dentro daquela igreja histórica.
O segundo perigo é o da canonização dos Reformadores. Pensar e acreditar quer
eram todos perfeitos, homens que viviam em virtudes extraordinárias, quase
super-humanos. Atribuir a eles inerrância e infalibilidade porque chegaram a
algumas posições e interpretações bíblicas ou doutrinárias, faz-nos incorrer no
mesmo crime e erros daqueles que invocam a Tradição ou o magistério Papal como
autoridade equivalente às Escrituras. Isso também é idolatria. Não
restam dúvidas, nossos Reformadores foram usados por Deus como instrumentos
para o início e a continuação e sistematização da Reforma e muitas de suas
contribuições são perenes. Mas eles não inventaram a roda, talvez, no máximo a
descobriram e melhoraram o seu uso. Um terceiro perigo é o de se
desejar repetir acrítica e anacronicamente o estilo de culto, o tipo da
liturgia, cantos e usos e costumes da igreja dos séculos 16, 17 e 18, como os
únicos aceitáveis por Deus e os únicos capazes de dar à Igreja uma identidade
cristã. É um erro pensar que devemos pregar usando de maneira absoluta os
mesmos métodos e conceitos de comunicação e transmissão de conteúdos desde o
púlpito ou a mesma didática da época para a catequese (o conteúdo, esse sim,
perene). Também é um erro pensar numa forma única de estética para o templo e a
própria ação litúrgica. Evidentemente que os elementos de culto empregados
pelos reformadores são indeléveis e inegociáveis, mas não porque fossem por
eles estabelecidos, mas porque são Bíblicos e se encontram presentes nos dois
cânones das Escrituras e foram firmemente estabelecidos por Deus. Uma quarta
sedução à idolatria é concluir que em nossos dias não existam contribuições
válidas para a igreja e que tudo se encontra tão perdido e corrompido que só
uma volta radical ao passado glorioso de nossos heróis pode nos salvar. Além de
pretencioso esse pensamento é ingênuo, para não dizer infantil. Os nossos dias
trazem consigo não só inúmeros e inimagináveis oportunidades, como também
ferramentas maravilhosas, um acúmulo de conhecimento sistematizado que os
Reformadores jamais sonharam possuir. Pesquisas científicas avançadas nas áreas
da história, arqueologia, línguas antigas, antropologia cultural e etc., nos
fazem penetrar com muito mais profundidade as maravilhas da Bíblia. Novas
Universidades, novos e equipados seminários, a enorme profusão de editoras e
novos autores, teólogos e pesquisadores nos enchem de esperança quanto ao
futuro da Igreja. Mas, nenhuma idolatria é mais perigosa do que esquecer que Cristo é o
Senhor e Cabeça da Igreja. Que Ele é o mais interessado em sua eterna
juventude, vitalidade, pureza e fidelidade. Que Ele mesmo é quem
empodera essa igreja por meio do seu Espírito, que levanta, comissiona e envia
homens, pecadores e frágeis, para continuar reformando e restaurando a vida da
igreja até o dia em que Ele mesmo, em pessoa, virá busca-la e a conduzirá para
um tempo em que as Reformas já não serão necessárias e nem mesmo relembradas.